16 de agosto de 2010

Novo Medal of Honor polemiza nos EUA

A franquia Medal of Honor ficou bem conhecida dos gamemaníacos, principalmente porque lançou títulos de qualidade, renovando o gênero de ação, em jogos de tiro em primeira pessoa (first person shooters). Até então, os títulos de Medal of Honor lançados traziam como cenário os eventos nostálgicos e heróicos das campanhas dos aliados na Segunda Guerra Mundial. Mais recentemente, após o sucesso do rival, Call of Duty, ao estabelecer zonas de guerra num plano presente, não mais no super explorado passado de guerra do século XX, com títulos como Modern Warfare, a Electronic Arts também resolveu resgatar a franquia do Medal of Honor com essa mesma nova fórmula. Assim, o Medal of Honor terá como cenário o Afeganistão. E, sinceramente, como era de se esperar dos americanos xenófobos e da imprensa sensacionalista, o novo Medal of Honor já causa polêmica, meses antes do lançamento (projetado para o fim desse ano). Tudo por quê? Porque, no modo multiplayer, os jogadores poderão encarnar não apenas tropas americanas, como rebeldes talibãs! E isso, aos olhos de muitos americanos, é abominável.

A rede de TV Fox News apresentou uma reportagem com a opinião de uma mãe cujo filho morreu em combate no Iraque. Para Karen Meredith, há diferença entre rever conflitos passados, como nos outros títulos da série, que se passavam na Segunda Guerra mundial, de guerras ainda em curso onde "pessoas estão morrendo". Certamente, milhares de outras pessoas tem a mesma opinião. Mas o que eu acho interessante é que, como eu disse no início, esse não é o primeiro título de jogo de tiro que usa um cenário de guerra real e de tempo presente. E o exemplo mais claro dessa hipocrisia americana é o jogo America's Army.

America's Army é um jogo multiplayer grátis, desenvolvido e disponibilizado pelo exército norte americano para enaltecer os feitos americanos, ressaltando a superioridade tecnológica e o ideal de liberdade, argumento principal utilizado para os EUA invadirem países rivais por conta de interesses econômicos e bélicos. Em America's Army, é impossível não ser da tropa americana. Se estás num lado do time, com a missão de impedir a travessia de uma ponte pelos inimigos, falas inglês, teus companheiros também e todos são brancos ou negões e estão muito bem uniformizados. Do outro lado, todos são mal vestidos, tem sotaque árabe, turbante e barba comprida. Se, por um acaso, trocas de lado na próxima rodada, para ter a missão de conseguir atravessar a ponte, os papéis simplesmente trocam. Mesmo com a missão invertida, o teu exército será americano e os teus companheiros americanos na rodada passada agora são os inimigos árabes nesta. Por que America's Army não está na mira dos americanos conservadores e da imprensa anti-videogame?

Como no velho ditado que conhecemos, pimenta nos olhos dos outros é refresco.

Aos olhos dos americanos, não há nada de errado em explodir prédios, carros e trucidar talibãs do time oposto. Mas trocar de time e cogitar a possibilidade de defender o lado árabe da batalha, ah não, isso é completamente impróprio, indecente frente aos ideais de liberdade do bom e velho americano WASP. America's Army é um jogo-propaganda do governo americano, enquanto que Medal of Honor é só um jogo, e com tal, tem a proposta de divertir sem o mesmo ímpeto ou obrigação de enaltecer um lado ou outro de um conflito armado. Não obstante, a campanha individual desse novo Medal é justamente sobre um esquadrão de elite do exército que realiza as missões mais perigosas e cirurgicamente estratégicas dos americanos, enfrentando no palco do Afeganistão todo tipo de inimigo que os combatentes da vida real encaram ainda hoje.

Atacar a legitimidade de um mero jogo de videogames, só porque o americanozinho filhinho da mamãe pode aderir ao lado negro da força, digo, ao lado talibã e ter como objetivo virtual de eliminar americanos, é uma postura, francamente, ridícula de uma sociedade conservadora e cega. E o argumento de que "pessoas estão morrendo" é monstruosamente hipócrita. A frase sincera é "americanos estão morrendo", posto que, para alguns americanos:

pessoas = americanos, logo,
não americanos = não pessoas

Ou seja, amparado pela Lógica Matemática, se fosse só para matar talibãs, estaria ótimo. Assim como acontece em Modern Warfare 2, que se passa num futuro próximo, "mais próximo do que se imagina", onde americanos matam mercenários russos, rebeldes árabes e traficantes de drogas brasileiros. Agora, pensar na hipótese de matar "pessoas"? Ah, isso é abominável, extremamente anti-ético.

Inteligente, sagaz e racional foi a resposta da Electronic Arts:

Fazemos isso desde quando temos 7 anos de idade. Se alguém brinca de polícia, o outro tem que ser o ladrão. No muliplayer de Medal of Honor, alguém tem que ser o talibã.

E eu, sempre digo. Na brincadeira de polícia e ladrão, o bom mesmo é ser ladrão. Sempre quis ser o ladrão, sempre. Era muito mais legal.

Por causa disso devo ser preso? Autuado? Investigado? Minha ficha é suja? Estou mais propenso a ser um malfeitor sanguinário? Sou comunista? Terrorista? Bom, aqui, não tem mais DOPS.

E lendo comentários interessantes por aí, cabe aqui reproduzir alguns:

Esse é o país da "Liberdade", hein.. Fazer passeata nazista hostilizando negros, judeus e latinos pode.. Brincar de Talibã não.. (Thiago Surian)

Se fosse um jogo (apenas) de norte-americanos matando Talibãs ninguém reclamaria. Hipocrisia. (Lucas®)

Ela tem que reclamar com o sistema norte americano que forjou uma guerra e assim enviou seu filho para defender um ideal estupido (marceloX360)

A ridicularidade disso me lembra essa bronca recente da mesquita perto do marco zero, das torres gêmeas, que recebeu protestos de muitos americanos. É impressionante o quanto alguns deles conseguem ser preconceituosos, ignorantes, xenófobos e egoístas. Lá, o mundo vai da Califórnia ao Maine e do Texas à Dakota do Norte. O resto, ignoram abertamente, não vale aprender. Lá, não existem pessoas, a exceção dos filhos que lutam para estabelecer a liberdade.

encéfalo

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