21 de julho de 2010

E agora Jabulani? - parte 2: Holanda

Para a infelicidade dos holandeses, mais uma vez, a laranja mecânica não conseguiu ir além de um vice campeonato em Copa do Mundo. Definitivamente ela pode ser conhecida como eterna vice-campeã, ou Vasco da Gama de uniforme laranja. O certo é que o futebol de resultado não trouxe o resultado, o que talvez seja bom para o futuro do futebol nos próximos anos, o que também fez mais uma vez Johan Cruijff ter razão quando disse que, no esporte, vencer não é o mais importante. Como entusiasta do futebol, espero que a Holanda deixe de lado definitivamente essa ideologia que teve nessa Copa de que só poderia pensar em ganhar uma Copa do Mundo se passasse a pensar mais no resultado e menos na forma como o seu futebol era jogado.


A mais evidente diferença entre a Holanda de 2010 e o carrossel holandês de 1974 e 1978 se evidenciou exatamente na vontade de vê-la, ou não, campeã mundial. Em 74 e 78 elas se apresentaram como favoritas, venceram seus jogos, eliminaram favoritos impondo um futebol especialmente surpreendente, principalmente em 74, pois o mundo nunca tinha visto o futebol total. Em linhas gerais, jogadores atacavam e defendiam sem necessariamente cada um ter uma posição fixa no campo, variavam de posições constantemente, rendendo o apelido de carrossel holandês. Sem a bola, rapidamente partiam em grande número para cima do adversário, impedindo que conseguissem sair jogando com a bola no pé. Com a posse de bola, tinham uma notável noção do posicionamento dos demais companheiros, pois mesmo com a grande movimentação e variação de posições, o esquema não mudava. Atacando em massa, defendendo em massa, variando posições. Hoje pode parecer muito óbvio, mas pensando nisso há 40 anos atrás, certamente foi uma das grandes revoluções táticas do futebol. Tanto em 74 quanto em 78, encararam na final os anfitriões, Alemanha e Argentina. Em 74, fizeram 1 a 0 sem sequer os alemães tocarem na bola. Em 78, foram até a prorrogação.

Voltando para 2010, a Holanda fez uma notável campanha, estabelecendo um longo período sem ser derrotada. Venceu todos os jogos das eliminatórias, venceu todos os jogos da primeira fase (contra Dinamarca, Japão e Camarões), venceu as oitavas-de-final (contra a Eslováquia) e nas quartas-de-final, diante do Brasil, soube muito bem se reestabelecer após um primeiro tempo de baixo nível e um revés no placar, ao virar o marcador no segundo tempo e até economizar empenho nas jogadas de contra-ataque diante de um Brasil totalmente perdido e emocionalmente incapaz em campo. Na semi-final, teve dificuldade em superar o Uruguai, desfalcado de Suárez, Lugano e com Forlán cansado e isolado. Mesmo assim, foi letal e eficaz, como contra o Brasil, marcando dois gols em poucos minutos e manteve a vantagem para selar rumo à final.

Mais uma vez, a Holanda tinha a chance de ser campeã numa Copa do Mundo. Dessa vez, sem o futebol empolgante e surpreendente de 74 e 78. O próprio técnico pregava que as campanhas da Holanda de Copas anteriores o credenciavam a jogar um padrão de futebol pelo resultado. A Holanda repetiu a péssima postura de apelar para a violência nas disputas sem a bola e apelar também no "cai-cai", nas disputas com a bola. Vi no jogo entre Espanha e Holanda o lance mais claro de cartão vermelho que talvez eu já tenha visto. Um pisão com a sola da chuteira de um holandês no meio do peito do Xabi Alonso, da Espanha. Acho que o árbitro economizou nos cartões e abusou da advertência verbal para não "interferir" no jogo, expulsando jogadores e prejudicando uma das equipes. Mas ele acabou interferindo pois se omitiu demais de muitos lances ríspidos. Pelo menos a Espanha que jogou só um pouco melhor (pois pra mim, ficar 60 dos 90 minutos trocando passes de um lado pro outro não é jogar bem) conseguiu o gol na prorrogação. Gol de Iniesta (o cadáver que anda e joga bola, muita bola) e assistência de Fábregas, o gunner com DNA catalão, como adoram dizer os picaretas do barça.

O final do jogo mostrou então que não existe fórmula para a vitória. Futebol de resultado ou futebol bem jogado? Futebol de contra-ataque ou futebol de posse de bola? Jogadas ensaiadas, pelo meio ou pela lateral? Preparação com concentração ou descontração? Nada. São 7 jogos de 90 minutos. Talvez 120. E talvez mais pênaltis. Vence quem ganha o jogo. Pode ser o que joga melhor, pode ser que não. O que teve mais competência, ou o que teve sorte. O que tinha mais talento, ou o que tinha mais raça. Pode ser o que se preparou mais, pode ser o que se preparou menos. Talvez o que se enclausurou na concentração, talvez o que liberou tudo. Nada importa. Só os 90 minutos.

E, dentro dos 90 minutos, a vitória não é o essencial. É o objetivo. Mas sempre devemos nos preparar para a iminência de não conseguir atingir o objetivo. Só assim se aprende a se superar. Sempre ouvimos que no esporte é preciso saber perder. Por isso mesmo. Se ganhar é o que mais importa, que adiantaria saber perder?

Holanda de 1974, junto a Brasil de 1982 e Hungria de 1954, retratam isso. A magia da paixão mundial.




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